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NieR Automata: Garrafas Jogadas ao Mar

18 jul 2019 - Blog

Nier-Automata

Muitas vezes eu paro para pensar em como as outras pessoas veem certas coisas que eu aprecio, seja música eletrônica dissonante e barulhenta, ou filmes de terror grotescos. Porém, eu imagino que essas pessoas também possuem um certo gosto por música e por cinema, mas que é apenas diferente do meu. Meu pai gosta de MPB e Bossa Nova, e já assistimos muitos Westerns do John Ford juntos. Minha mãe ouve Red Hot Chilli Peppers e assiste algumas comédias na Netflix ao meu lado.

Mas com games, a situação é muitas vezes bem diferente. O que passa na cabeça de pessoas da geração deles ao verem aqueles emaranhados de imagens e sons controlados por pequenas peças de plástico é inconcebível pra mim. Ainda mais eu, que literalmente cresci jogando games. Uma das minhas memórias mais antigas na vida é de jogar Goof Troop (conhecido por aqui como jogo do Pateta e Max) no Super Nintendo com meu irmão, e em certo momento, com meu pai no segundo controle. Para ele, era uma absurda confusão tentar desvendar como o jogo funcionava.

Isso é parte do motivo pelo qual escrevi o meu primeiro artigo: “Video game é Arte?”. Por esta mesma razão, tenho receio em continuar seguindo com o tema. Apesar de o texto ter sido elogiado por algumas pessoas próximas, não sei se ele cumpriu o seu papel de elucidar uma nova visão sobre games em alguma pessoa que os desconsiderava anteriormente. Existe a possibilidade de meu texto nem ser tão bom assim. Além do que, o público que de fato o leu foi muito pequeno para que seu impacto seja significativo. Ou pior ainda, é possível que pessoas muito mais eloquentes expressem ideias contrárias às que eu defendo.

Por qualquer que seja o motivo, escrever e publicar artigos para mim, se parece com o ato de lançar mensagens dentro de um garrafas num infinito mar de código de programação e eletricidade. Seja por excesso de ambição ou pela inerte crueldade do mundo digital moderno, o último artigo me deixou sozinho, desmotivado para continuar produzindo qualquer material criativo. O que eu esperava obter com o texto nunca chegou e a ideia de continuar escrevendo soava como perda de tempo. Mesmo assim, você está lendo um novo artigo, então algo deve ter acontecido para mudar meus sentimentos.

O que aconteceu foi NieR: Automata.

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Falar de NieR: Automata para um público não acostumado com games talvez seja uma péssima ideia, mas, por influência do próprio jogo, não estou mais tão preocupado se minha intenção seja mal interpretada.

Apesar de ser o quinto título da série que iniciou em 2003, ainda no Playstation 2, NieR: Automata não exige conhecimento dos títulos anteriores para se apreciar o enredo central. Porém, a trama possui detalhes que são explicados nos jogos passados e em diversos materiais acessórios (Curiosidade: existem até peças teatrais que foram apresentadas no Japão explorando o mundo e os personagens da série. Isso não é normal nem para os jogos japoneses mais excêntricos.)

Mas, acredito que existe um cerne que vale a pena ser comentado, mesmo que num texto de apenas duas mil e poucas palavras. (Spoilers para Nier: Automata) O enredo segue a história dos “Androides”, uma raça de robôs criados pela humanidade, em sua gigantesca guerra por procuração contra as “Máquinas”, estas criadas por alienígenas que invadiram o planeta Terra. Um detalhe importante: o jogo se inicia em um momento em a guerra está estagnada a quase 7 mil anos.

A história passa por uma série de melodramas e batalhas gigantescas típicas de animes, mas uma mudança brusca acontece no momento em que os personagens descobrem que tanto os humanos que os criaram, quanto os alienígenas que eles combatem estão, na verdade, todos mortos há milhares de anos. Não apenas isso, também é revelado que os androides e as máquinas são feitos dos exatos mesmos materiais e com a mesma programação.

Uma grande crise existencial é o resultado desta descoberta. Os humanos são, nesse contexto, os deuses que deram não apenas a vida aos androides, mas também o propósito de sua existência. Lutar contra as máquinas é tudo que eles sabem fazer, mas agora eles sabem que estavam lutando contra sua própria espécie. A frase de Friedrich Nietzsche: “Deus está morto”, se aplica tão perfeitamente à situação que um dos personagens até cita o nome do filósofo em determinado momento.

Existem diversos textos e livros que se utilizam dos enredos de games, filmes ou séries de TV para apresentar teses filosóficas, mas em NieR: Automata a filosofia existencialista é inevitavelmente o conflito central da história. Todas as batalhas com robôs gigantes servem apenas para enquadrar a busca dos personagens por propósito e significado, em um mundo que não se importa com eles. Os personagens Pascal, Jean-Paul (Sartre), Simone (de Beauvoir) e (Søren) Kierkegaard personificam grandes ideias defendidas pelos filósofos cujos nomes eles compartilham.

No caminho de todo este terror existencial, diversas tragédias acontecem. 2B, a personagem central e mais idolatrada pelos fãs, morre em aproximadamente dois terços da trama. Os dois outros personagens jogáveis, 9S e A2, passam por diversos questionamentos sobre o propósito de suas existências e acabam também morrendo de maneira trágica. Pascal é uma máquina pacifista que forma uma vila em conjunto com outros que acreditam na paz, apenas para ver tudo o que construiu desmoronar e todas as outras máquinas companheiras morrerem.

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E ao fim de tudo isso, chega-se à fase mais difícil de completar em todo o game: Os créditos finais. Sim, os próprios créditos são “gamificados”. Nesse momento, o jogador controla uma nave espacial que luta contra os nomes dos desenvolvedores do próprio jogo. Cada vez que o ele “morre” nessa seção, a tela de “Continuar?” muda um pouco. Ela começa com tradicional “deseja continuar?”, mas sua mensagem muda para “Quer desistir?”, “Você aceita a morte?”, “Você acha que jogos são besteiras?”, e por fim, “Você admite que não existe significado neste mundo?”

Enquanto o jogador decide se vai continuar nessa seção completamente enfurecedora, algo começa a acontecer. A tela começa a se encher de mensagens de encorajamento escritas por pessoas de todo o mundo. “Já foram muitos continues? Não desista!” – Magyo, EUA. “Você e eu não somos diferentes. Nunca desista!” – Winslow, Áustria. “Eu adoro esse jogo, por isso, vamos compartilhar a alegria de termina-lo juntos!” – Arex, Japão. Todas as mensagens foram escritas por pessoas reais. Após uma considerável insistência, aparece a possibilidade de aceitar ajuda de outros que já terminaram o jogo. Caso o jogador concorde, a fase se torna muito mais fácil, enquanto cada “game over” é substituído pela destruição de um dos veteranos, com seus nomes de usuário realçados no instante em que são reduzidos a pó.

Após derrotar os créditos do Staff da Square Enix e do time de Design de Áudio, a fase termina e o jogador vence. Mas não acaba por aí. É possível deixar uma mensagem para os outros, como aquelas vistas anteriormente. E, é chegada a hora da revelação mais impactante de todas , e um dos momentos mais profundos pelos quais já passei jogando videogames a vida toda, desde o Goof Troop no Super Nintendo: Após finalizar a batalha dos créditos finais, o jogador pode deixar um avatar de sua nave ajudando outros que estão sofrendo naquela mesma seção. Porém, isso tem um preço: A destruição de todo o seu progresso até ali, apagando seu Save Game.

Para criar um pouco mais de contexto, NieR: Automata é um game bastante longo. Foram diversos objetivos concluídos, itens descobertos, modos de jogo extra liberados e muito tempo investido: Eu demorei 40 horas para chegar a esse ponto. Todo esse progresso seria apagado. Não sobraria nada além das minhas próprias memórias da experiência.

Ao aceitar a opção altruísta, o jogo dá diversas chances de reconsideração: “Você tem certeza que quer fazer Isso?”, “Ninguém que vai saber quem você é, ou te agradecer por essa atitude.”, “Você trabalhou muito duro para liberar a seleção de capítulo e modo Debug.”, “A pessoa que você ajudar pode ser alguém que você odiaria se conhecesse na vida real.”

“Você realmente quer fazer isso?”

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Ao finalizar a última fase de NieR automata, eu deixei uma mensagem para outros jogadores dizendo: “O mundo é cheio de dificuldades. Mesmo assim, estamos juntos com você.” Ali percebi minha própria fala se voltando para mim. Enquanto milhares de jogadores ao redor do mundo deixavam suas mensagens uns para os outros, eu percebi que uma pessoa totalmente desconhecida havia sacrificado horas de progresso, ainda mais em um jogo que ela deve ter gostado muito, para me ajudar. Eu me ajeitei no sofá, respirei fundo e apertei o botão de “Sim”.

Devagar, o jogo passa por cada uma de suas realizações e vai deletando uma a uma. Cada missão principal e secundária, cada item, cada capítulo da história, cada arma reforçada ao seu máximo, e por fim, o seu Save por completo. Neste momento, confesso que derramei algumas lágrimas. Não pela tristeza de perder todo o meu progresso, mas pela alegria de saber que diversas pessoas pelo mundo sofreram pela mesma fase quase impossível e chegaram esse mesmo momento para ajudar uns aos outros. Eles que foram responsáveis por me fazer chegar onde cheguei, me proporcionando a opção de sacrificar minhas dezenas de horas de jogo para continuar o ciclo de destruição e solidariedade.

Na conclusão de uma história tão angustiante e trágica, a procura por propósito na vida não resulta em nenhuma resposta. Mesmo assim, alguém se sacrificou por você. Talvez isso tenha um significado.

O quão apropriado é um videogame me incentivar a voltar a escrever sobre videogames, não é? NieR: Automata é um daqueles raros jogos que não se limita à tela de sua televisão ou computador. Seu impacto transborda para vida real de uma maneira que só games podem. Filmes, livros, séries, pinturas, arte performática, nada te possibilita o tipo de conexão e interação mostradas nesse exemplo. Não há como deixar mensagens nos filmes que outros assistem, ou como deletar todo seu progresso em uma série de TV. A interatividade desse vídeo game possibilita que o jogador faça algo real e tangível por outras pessoas. E possibilidades como essas resultam em experiências altamente transformadoras, muito além daquilo que a maioria das pessoas entende por vídeo games. É essa a ideia que quero transmitir neste artigo. Agora, que sinto devo publicar esse texto na internet, como uma mensagem de encorajamento no meio de milhares de outras no menu de continuar. Eu devo dedicar meu tempo e esforço para jogar essa garrafa no mar eletrônico, pois alguma pessoa, em algum lugar, fez isso por mim. Posso acabar não ganhando nenhum reconhecimento por esse texto, ele pode não alcançar ninguém, mas isso não importa mais. Eu vou começar Nier: Automata de novo, do zero. Eu vou escrever mais textos sobre games. Vou jogar mais garrafas no mar.

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Assim como no texto passado, sinto a necessidade de reforçar que o jogo é muito mais profundo do que foi apresentado neste texto, porém nesse caso na intensidade é muito maior do que em Braid. São dezenas de Side Quests, 4 outros jogos na série Drakengard/NieR e até aquelas peças de teatro que já citei. Portanto, indico que os interessados busquem mais informações sobre o jogo, pois existe uma quase infinidade de ideias fascinantes a serem exploradas. Abaixo seguem os links de alguns dos vídeos que indico:

Super Bunnyhop – Nier: Automata’s Uplifting Existentialism (Story Discussion)

Um dos melhores canais do Youtube, George Weidman apresenta aqui uma análise fascinante que foca em aspectos da cultura japonesa, na vida do idealizador da série Yoko Taro e, até mesmo, uma interpretação da história pela teoria Marxista.

Clemps – NieR Automata Analysis (PART 1)

Clemps é um youtuber de games especialista na série Drakengard/NieR. Esta é a primeira parte da análise mais profunda, detalhada e divertida do jogo que já encontrei no Youtube. O total dos 4 vídeos somam 2 horas e meia de análise.

Wisecrack – Most Philosophical Game Ever? – The Philosophy of NieR: Automata

Esse vídeo foca no aspecto da filosofia do jogo, detalhando a relação do enredo com os filósofos referenciados.

Extra Credits – NieR: Automata – Sacrifice and the Meaning of Kindness

Esse vídeo conta como se dá a batalha final e a decisão do altruísmo, mas também exemplifica bem a forma como muitos outros jogos abordam o mesmo tema de maneira muito mais rasa.


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Danilo Mattos
Sobre Danilo Mattos

Músico e apaixonado por cinema. Estuda Administração de Empresas e trabalha na área de redes sociais da Interativa Comunicação e Eventos.

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