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Goiânia celebra 65 anos do I Congresso de Intelectuais

14 fev 2019 - Blog

Há exatos 65 anos, Goiânia entrou, definitivamente, na rota da cultura brasileira. A então mais nova capital brasileira sediou de 14 a 21 de fevereiro de 1954 um evento que movimentou as hostes culturais do país: o I Congresso Nacional de Intelectuais. Aqui aportaram cerca de 300 expoentes da intelligentsia brasileira, provenientes de diferentes Estados da federação. E receberam, ainda, o reforço de outras nove delegações estrangeiras, onde pontificava a figura carismática do poeta Pablo Neruda, que no dia da abertura do evento, no então Cine Teatro Goiânia, recitou os seus versos que marcaram várias gerações.

A presença de Neruda nesse evento é relativamente conhecida. Mas, seguramente, ignora-se a importância desse congresso para o debate cultural que se travava no Brasil em meados do século passado. Para mobilizar os participantes para o conclave circulou na imprensa um manifesto subscrito por mais de mil intelectuais brasileiros. Nomes expressivos e de diferentes correntes ideológicas. Esse manifesto já esboçava as linhas das discussões, cujo temário central focava a “Preservação da Cultura Nacional”. Era, sobretudo, uma crítica e uma resposta à “invasão cultural” pela qual o país estava atravessando.

Neruda, no Teatro Goiânia, na abertura do Congresso de Intelectuais

Neruda, no Teatro Goiânia, na abertura do Congresso de Intelectuais

 

Nessa época, duas potências digladiavam pela conquista de “corações e mentes”: os EUA, que representava o bloco capitalista, e a URSS, que liderava o bloco socialista. Era o período, de um lado, do Macarthismo (referência ao senador ultradireitista Joseph McCarthy) e, do outro, do Jdanovismo (referência a Andrei Jdanov, comissário de Stalin responsável pela produção cultural). Havia, efetivamente, uma “guerra cultural” no plano internacional, com reflexos internos nos países que orbitavam em torno dessas duas superpotências. No Brasil, o debate nesse segmento foi contaminado por esse “espírito do tempo”.

Em face a essas questões, era de se esperar que uma postura sectária demarcasse as discussões do I Congresso de Intelectuais, uma vez que havia relativa influência das forças de esquerda na organização do evento, capitaneado pelo PCB, cuja expressão maior na área cultural era a figura do escritor Jorge Amado, então presidente da Associação Brasileira dos Escritores (ABDE). Mas o que se viu foram posições equilibradas, que evitaram extremismos ideológicos, à esquerda e à direita. Localmente, o evento foi organizado pela Academia Goiana de Letras, cujo presidente era José Xavier de Almeida Jr.

Amália Hermano Regina Lacerda Frei Confaloni e Jorge Amado no churrasco para os intelectuais.

Amália Hermano Regina Lacerda Frei Confaloni e Jorge Amado no churrasco para os intelectuais.

Os congressistas condenaram o “cosmopolitismo” e a “descaracterização da nossa  cultura” e defenderam enfaticamente nossas tradições e raízes, que se expressavam por intermédio da cultura popular e das chamadas “manifestações folclóricas”, que estavam em voga. A Exposição de Artes Plásticas, evento que aconteceu paralelo ao Congresso,  estampava na capa do Catálogo uma boneca Karajá. Um dos nomes de destaque desse evento foi Frei Nazareno Confaloni. Os artistas que participaram da exposição doaram os seus quadros para a formação do Museu de Arte de Goiânia, que só veio a ser inaugurado 15 anos depois.

O Congresso de Goiânia foi um marco da cultura brasileira porque conseguiu congregar num mesmo espaço diferentes segmentos da intelectualidade do país: escritores, músicos, poetas, padres, cientistas, cineastas, atores e atrizes, professores, jornalistas, artistas plásticos, entre outros. O que o diferencia daqueles conclaves que o precederam, organizados pela ABDE, realizados em São Paulo (1945), Belo Horizonte (1947), Salvador (1950) e Porto Alegre (1951), onde só participaram escritores. Aqui em Goiânia os intelectuais, unidos, buscaram alternativas para a “preservação e crescimento da cultura nacional”.

Pablo Neruda e Frei Confaloni na Exposição de Artes Plásticas.

Pablo Neruda e Frei Confaloni na Exposição de Artes Plásticas.


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Francisco Barros
Sobre Francisco Barros

Diretor de Novos Negócios da Interativa Comunicação e Eventos. O seu hobby é a leitura, especialmente, os textos de literatura; é jornalista, escritor, mestrando em Mídia e Cultura e Editor do Blog da Interativa.

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